Centro de Yoga Montanha Encantada | Instituto de Yoga Integrativa

O Asana no Yoga

Por Carlos Eduardo G. Barbosa

De onde vem a prática que conhecemos hoje

O Yoga chegou ao Ocidente há poucas décadas, mas conquistou nossos corações estressados. Pesquisado com rigor científico desde 1924, o Yoga que aprendemos a praticar revelou-se tão saudável que foi adotado como terapia complementar na recuperação de pacientes, em inúmeros hospitais. Também tem sido utilizado com sucesso como ação preventiva contra o estresse e alguns distúrbios da atenção.

O grande afeto que nutrimos por essa prática nos faz acreditar que tenha sido feita dessa mesma maneira na Índia, por muito tempo. Há uma crença bastante comum entre os praticantes de que o Yoga como conhecemos seria muito antigo, remontando a milênios. Por essa visão idealizada, os antigos sábios yogis são retratados praticando séries de asanas (posturas) com grande habilidade, talvez iniciando suas práticas com um vigoroso suryanamaskar (saudação ao sol).

No entanto, o quadro que se descortina na literatura original é bem diferente dessa visão moderna do Yoga. Nascido na época védica, a partir das reflexões das Upanishads (textos clássicos do Vedanta), o Yoga não menciona qualquer variedade de asanas, senão em tempos muito recentes, talvez a partir do século XIV em obras como a Hatha Yoga Pradipika. Ainda assim, em nenhum momento se fala sobre séries de asanas.

Estabilidade e Conforto

Se considerarmos desde a criação da doutrina, com os Yogasutras de Patanjali (por volta de 400 a.C.) vemos que se atribui ao asana as qualidades do conforto e da estabilidade, conciliando esforço e relaxamento.

O originador do Hatha Yoga, Gorakshanatha, diz, no Siddha Siddhanta Paddhati (séc. XI), que o asanam é "a condição de quem alcançou a sua mais autêntica natureza. Svastikasanam, padmasanam, siddhasanam, uma destas é desejável para nela permanecer, para fixar a atenção. Essa é a característica do asanam" (2,34). Ele apresenta o asana como um ajuste do corpo a uma prática meditativa. Ele é o apoio indispensável para o pranayama (exercício respiratório), o mudra e o samadhi (estado de bem-aventurança), que são os passos seguintes do Yoga, na Hatha Pradipika.

É importante notar que, na Hatha Pradipika, a palavra asana não se refere à postura do corpo, mas à conversão do corpo no assento do "eu". O autor também usa a palavra pitha (assento) no lugar de asana, o que dá uma noção mais precisa da ideia que ele desejava passar. E não há qualquer recomendação para que se pratique todos os asanas ali descritos.

Os textos sânscritos deixam claro que é necessário praticar apenas um asana. Fala-se que existem 84 asanas, ou que há tantos asanas quantas são as espécies de seres viventes (jatis). Mas quase sempre explica que se deve buscar um assento confortável (sukhasana), qualquer que ele seja. Nenhum texto antigo indica que seja feito mais do que apenas um asana. A Mandalabrahmana Upanishad também sugere apenas que se busque um assento confortável. Já a Shandilya Upanishad esclarece que quem não puder escolher uma das posturas, deve se colocar em qualquer asana em que seja capaz de se manter confortavelmente. A Jabaladarshasana Upanishad vai um pouco além e afirma que qualquer asana capaz de conquistar para o praticante a condição de conforto e firmeza pode ser chamado de sukhasana e é recomendável para quem não consegue assentar-se em outra posição.

De onde vem o que fazemos?

Há alguns indícios sugestivos de que a prática de séries de posturas teria origem militar, na ginástica tradicional da Índia - chamada vyayama. O uso do vyayama se estende por pelo menos tanto tempo quanto a prática do Yoga meditativo. Essa integração mais recente entre o vyayama e o Yoga teria se iniciado talvez dentro da Confederação Maratha, um estado hindu que surgiu no século XVI e que inaugurou o nacionalismo contra o império islâmico Mogul.

Apoiados pelos sacerdotes de tradição tântrica de Bengala, região onde nasceu a seita dos Nathas - os criadores do Hatha Yoga -, os líderes Marathas teriam adotado o Yoga como uma prática de apoio para os soldados e comandantes de seu temido exército. Dentro do território Maratha também se desenvolveu uma mistura de ginástica com arte marcial, chamada Mallakhamb, que, por volta do final do século XVIII também se misturou ao Yoga.

Os Marathas, como os Nathas, eram contrários ao sistema de castas, defendiam o uso da língua sânscrita e tiveram sua imagem atacada por grupos internos da Índia, que procuravam caminhos para assumir o poder político. Por essa razão se criou, no início do século XIX, a assertiva de que o Hatha Yoga era diferente do Raja Yoga, e que fazia mal à saúde. No início do século XX, Swami Abhedananda recomendava a prática do Hatha Yoga, contra a propaganda negativa que se estendera ao longo de todo o século XIX. Quando o Hatha Yoga ganhou espaço no universo da ciência, foi pelas mãos de Kuvalayananda - que havia aprendido Yoga de um campeão de Mallakhamb.

Também o Yoga de Krishnamacharya, que é a principal fonte do Yoga no Ocidente, se fundamenta na documentação do antigo reino de Mysore, que teve longas e turbulentas relações com os Marathas. Ali se apresenta um Yoga distante de sua forma original, totalmente confundido com as práticas de Mallakhamb, feitas com o apoio de cordas e postes.

Mudança de foco

Também os nomes de asanas modernos divergem grandemente dos nomes mais antigos criados pelos próprios Nathas. Os nomes originais eram alusões a mitos que deveriam ser mentalizados no momento da preparação do espaço para o pranayama e a meditação. Já os nomes modernos foram inventados para descrever o formato assumido pelo corpo durante a montagem da postura.

Por isso, quando você fizer a sua prática de asanas, lembre-se que, embora eles sejam bastante saudáveis e tragam um grande bem-estar para o nosso corpo, esse não era o benefício primordial que essa disciplina buscava. O objetivo original do asana era dar ao praticante a tranquilidade e a estabilidade necessárias para que ele pudesse manifestar sua verdadeira natureza interior. Tornar-se autêntico, aceitar-se com satisfação, ter uma disposição de caráter firme, sincera e espontânea - isso sim foi o ideal da prática do Yoga muito antes dos asanas tornarem-se tão importantes como hoje acreditamos que sejam.

Carlos Eduardo Gonzales Barbosa é mineiro de Juiz de Fora, dedica-se ao estudo das culturas da Índia desde 1972. Cursou Sânscrito na Universidade de São Paulo e, desde 1975, ministra cursos e palestras sobre temas relacionados à Índia, ao Hinduísmo e ao Yoga. Co-autor do "O Livro de Ouro do Yoga" lançado pela Ediouro.

Fonte: Revista Yoga Vidya, 2010.


Centro de Yoga Montanha Encantada

Fundado por Joseph e Lilian Le Page em 2003, é a sede da escola de Yoga Integrativa, que vem marcando sua presença no Brasil desde 1996. O Centro Montanha Encantada é um refúgio para o corpo-mente-espírito, localizado entre o mar e as montanhas em uma área de 34hm² de Mata Atlântica, é ideal para práticas de Yoga, Meditação, entre outras, com enfoque no autoconhecimento.

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